Rio de Janeiro em Estado de Conflito Permanente e os Limites da Segurança Baseada na ForçaRio de Janeiro em Estado de Conflito Permanente e os Limites da Segurança Baseada na Força

Rio de Janeiro em Estado de Conflito Permanente e os Limites da Segurança Baseada na Força

James Anderson
By James Anderson

O Rio de Janeiro vive um cenário de violência que ultrapassa a noção tradicional de criminalidade urbana e se aproxima, cada vez mais, de um estado de conflito permanente. Grandes operações policiais, confrontos armados em áreas densamente povoadas e a suspensão recorrente da rotina de milhões de pessoas tornaram-se elementos quase banais do cotidiano. Este artigo analisa como essa lógica de enfrentamento molda a política de segurança, impacta a população e revela limites evidentes de um modelo centrado no uso intensivo da força, além de discutir caminhos possíveis para uma abordagem mais eficaz e sustentável.

A sensação de guerra urbana não surge apenas da intensidade dos confrontos, mas da frequência com que eles ocorrem e da previsibilidade de seus efeitos colaterais. Escolas fechadas, transporte interrompido, comércio paralisado e moradores confinados em suas casas demonstram que a violência extrapola o embate entre Estado e crime organizado e passa a atingir diretamente a vida civil. Nesse contexto, a segurança pública deixa de cumprir sua função primordial de proteção e passa a operar como gestão de crises sucessivas, sempre reagindo e raramente prevenindo.

A estratégia predominante tem sido marcada por ações de grande impacto, com forte presença policial e uso de armamento pesado em comunidades vulneráveis. Embora essas operações sejam frequentemente justificadas como resposta necessária ao avanço do crime, seus resultados práticos levantam questionamentos relevantes. A neutralização pontual de lideranças criminosas não tem sido suficiente para desestruturar organizações complexas, que rapidamente se reorganizam e retomam territórios. O ciclo se repete, com alto custo humano e social, sem produzir mudanças estruturais duradouras.

Do ponto de vista institucional, essa lógica de confronto contribui para a naturalização da exceção. Medidas extraordinárias passam a ser tratadas como regra, e a violência estatal é relativizada em nome de uma promessa de ordem que raramente se concretiza. Esse processo fragiliza princípios fundamentais do Estado de Direito e amplia a distância entre o poder público e parcelas significativas da população, especialmente nas periferias urbanas, onde a presença estatal é percebida quase exclusivamente por meio da repressão.

Há também um impacto simbólico profundo. Quando o discurso oficial adota uma retórica bélica, reforça-se a ideia de que determinados territórios e seus moradores são inimigos internos. Essa narrativa alimenta estigmas, legitima abusos e dificulta qualquer tentativa de construção de confiança. Sem confiança, políticas de segurança perdem eficácia, pois a cooperação da comunidade é elemento central para a prevenção e para a investigação qualificada de crimes.

Na prática, a insistência em soluções baseadas apenas na força revela uma limitação estratégica. A criminalidade organizada no Rio de Janeiro não se sustenta apenas pelo uso de armas, mas por redes econômicas, sociais e políticas que garantem recursos, informação e influência. Combater apenas a face armada do problema equivale a tratar sintomas sem enfrentar as causas. Enquanto persistirem desigualdades profundas, ausência de serviços públicos consistentes e falta de oportunidades, o ambiente continuará propício à reprodução da violência.

Uma abordagem mais racional exige a integração de políticas públicas. Segurança não pode ser pensada de forma isolada, desvinculada de educação, urbanismo, saúde e desenvolvimento social. Experiências nacionais e internacionais indicam que estratégias baseadas em inteligência, investigação financeira, controle territorial contínuo e investimentos sociais produzem resultados mais consistentes do que ações esporádicas de alto impacto. Isso não significa abdicar do uso legítimo da força, mas subordiná-lo a critérios claros, transparentes e orientados pela preservação da vida.

Além disso, é fundamental fortalecer mecanismos de controle e avaliação das ações estatais. Transparência, responsabilização e coleta de dados confiáveis são essenciais para ajustar políticas e corrigir excessos. Sem isso, o debate público permanece refém de narrativas emocionais, que oscilam entre o clamor por repressão máxima e a indignação diante de tragédias anunciadas.

O Rio de Janeiro simboliza um dilema que ultrapassa suas fronteiras. A persistência de um modelo que produz sensação de guerra contínua indica a necessidade urgente de revisão de prioridades. Segurança pública eficaz não se constrói apenas com operações espetaculares, mas com planejamento de longo prazo, presença estatal permanente e respeito aos direitos fundamentais. Romper o ciclo da violência exige abandonar soluções simplistas e reconhecer que a paz urbana é resultado de escolhas políticas complexas, sustentadas no tempo e orientadas para a inclusão social.

Autor: James Anderson

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