Reconhecimento facial já ajudou a prender 1.400 foragidos na Bahia em 2026

Diego Velázquez
Por Diego Velázquez

Tecnologia usada pela segurança pública baiana se expande pelo país, mas expansão do monitoramento reacende debate sobre privacidade e uso de dados biométricos.

A tecnologia de reconhecimento facial deixou de ser uma promessa futurista para se tornar rotina nas ruas brasileiras. Na Bahia, estado pioneiro no uso da ferramenta, o sistema alcançou a marca de 1.400 foragidos da Justiça localizados em pouco mais de seis meses de 2026. O número consolida a Bahia como referência nacional em videomonitoramento inteligente aplicado à segurança pública, mas também levanta uma dúvida recorrente entre especialistas e cidadãos: até que ponto o avanço dessas câmeras equilibra eficiência policial e proteção de dados pessoais de quem não cometeu nenhum crime? Entender como a tecnologia funciona, onde ela já está instalada e quais são os limites legais em discussão ajuda a responder essa questão. Enoticias

Como o reconhecimento facial tem ajudado a polícia

O caso mais recente que ilustra a eficácia da ferramenta aconteceu em Vitória da Conquista, no sudoeste baiano, onde o sistema identificou um homem procurado pelo crime de estupro de vulnerável após as câmeras de videomonitoramento emitirem um alerta sobre um mandado de prisão definitiva em aberto. Assim que o alerta chegou ao Centro Integrado de Comunicações, equipes da Polícia Militar foram acionadas e conduziram o suspeito até a unidade responsável, em um processo que costuma levar poucos minutos entre a identificação e a abordagem. Enoticias

A evolução do sistema baiano ao longo dos anos mostra crescimento consistente na captura de foragidos. Conforme dados da própria Secretaria de Segurança Pública, em 2023 foram realizadas 680 capturas, em 2024 a Polícia alcançou 1.132 foragidos e no ano seguinte 2.059 criminosos foram presos com o auxílio da tecnologia. Hoje, mais de 80 cidades baianas contam com câmeras equipadas com a ferramenta, além da capital, o que ajuda a explicar por que o número de capturas segue subindo ano após ano. Gov BahiaGov Bahia

O modelo baiano também tem influenciado outras cidades. Em Belo Horizonte, por exemplo, a prefeitura formalizou a integração do reconhecimento facial municipal aos bancos de dados da Polícia Federal, dentro do projeto Muralha BH, que prevê a instalação de milhares de câmeras em pontos estratégicos da capital mineira. Segundo a administração municipal, quando há uma possível correspondência entre uma imagem captada e os bancos de dados federais, o sistema emite um alerta, mas a informação é verificada por especialistas antes de qualquer ação policial, evitando decisões automáticas. Estruturalonline

O debate sobre privacidade que a expansão da tecnologia provoca

Ao mesmo tempo em que os números de capturas crescem, ganha força a discussão sobre os limites do uso dessas câmeras. O ponto central é que, para localizar um pequeno número de foragidos, o sistema precisa escanear o rosto de milhões de pessoas que circulam diariamente por ruas, estações e eventos, sem que tenham cometido qualquer infração. Segundo análise recente, as principais preocupações giram em torno do armazenamento e do uso dos dados biométricos de cidadãos que não cometeram crimes, mas que são escaneados diariamente, além de questões sobre quem acessa essas informações e por quanto tempo elas ficam guardadas. Correio Braziliense

A legislação brasileira ainda está se ajustando a essa realidade. Conforme apontado por especialistas, a Lei Geral de Proteção de Dados estabelece regras para o tratamento de informações pessoais, incluindo dados biométricos, mas a aplicação específica para fins de segurança pública ainda é um tema em evolução. Isso significa que, embora exista uma base legal geral, faltam normas mais detalhadas sobre prazos de armazenamento e auditoria do uso dessas imagens pelas forças policiais. Correio Braziliense

Esse debate também apareceu em discussões institucionais, como um encontro promovido pelo Conselho Nacional do Ministério Público sobre a experiência paulistana com o programa Smart Sampa. Na ocasião, um conselheiro do CNMP defendeu que outras cidades adotem modelos semelhantes, mas outra participante do debate, promotora de Justiça, destacou a necessidade de controle externo da tecnologia para garantir que as garantias fundamentais dos cidadãos sejam preservadas ao longo de todo o processo de monitoramento.

Por que estádios e grandes eventos usam a ferramenta com mais frequência

Uma das aplicações que mais cresceu recentemente é o uso do reconhecimento facial em locais de grande circulação, como estádios de futebol, shows e feiras de exposição. Em uma feira recente no Maranhão, por exemplo, o sistema ajudou a cumprir dois mandados de prisão civil em menos de 24 horas de evento, identificando suspeitos em meio a milhares de visitantes. Esse tipo de uso pontual, concentrado em eventos com grande fluxo de pessoas, tende a gerar menos resistência entre especialistas em privacidade do que o monitoramento permanente de vias públicas.

Desde 2025, a tecnologia passou a ser obrigatória em estádios com capacidade para mais de 20 mil pessoas, o que ajuda a explicar a rapidez com que ela vem se espalhando pelo país. Para o setor de eventos, a ferramenta representa uma forma de reforçar a segurança sem depender exclusivamente da abordagem policial tradicional, otimizando o trabalho das equipes em campo diante de multidões difíceis de monitorar manualmente.

O crescimento do reconhecimento facial na segurança pública brasileira parece, por ora, uma tendência consolidada, especialmente diante dos resultados numéricos apresentados por estados como a Bahia. Mas o equilíbrio entre eficiência policial e proteção de dados pessoais ainda está em construção, e deve seguir sendo debatido em fóruns institucionais e no próprio Congresso Nacional ao longo dos próximos meses. Fontes: SSP Bahia (ba.gov.br), Correio Braziliense e CNMP.

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