Felipe Rassi detalha que a análise setorial, em crédito não performado, precisa ser tratada como exercício de recorte e prudência, porque “setor” pode significar comportamento agregado de inadimplência, concentração de carteiras em determinados originadores ou aumento de cessões em segmentos específicos. Nesse sentido, a pergunta sobre volumes não se resolve apenas com um ranking, ela exige entender qual indicador está sendo usado e qual é a fonte.
O valor de uma análise setorial aparece quando ela orienta o processo: segmentação do portfólio, desenho de abordagem e priorização de saneamento. Portanto, mesmo quando números existem, o passo seguinte é transformar dado em critério, sem confundir volume com recuperabilidade.
O que significa “maior volume” em termos de indicador
Há mais de um modo de medir volume. Um recorte comum é o indicador de inadimplência do sistema, que aponta pressão sobre a carteira como um todo. Por exemplo, uma notícia baseada em divulgação do Banco Central mencionou inadimplência de 5,5% em janeiro. Contudo, esse dado é agregado e não aponta, sozinho, quais setores concentram NPLs.
Outro recorte frisado por Felipe Rassi é o volume de cessões realizadas por segmento, que depende de decisões estratégicas de originadores e de apetite dos compradores. Nessa linha, levantamentos de mercado podem indicar setores com maior movimentação em determinado período. Nessa perspectiva, “maior volume” pode refletir uma combinação entre estoque, maturidade do mercado e viabilidade de transação.
Setores e padrões de risco que costumam orientar triagem
Mesmo sem tratar o setor como “culpado”, alguns padrões são recorrentes em ciclos de juros elevados, como pressão em crédito ao consumo e em empresas com fluxo sensível a custo financeiro. Além disso, segmentos com alta pulverização de contratos tendem a gerar grandes carteiras transacionáveis, enquanto segmentos com grandes devedores corporativos podem gerar volume em poucos casos, porém com complexidade maior.

Conforme indica Felipe Rassi, o recorte setorial deve servir para calibrar o método. Logo, em carteiras pulverizadas, cadastro, trilha de contato e padronização de saldo são variáveis centrais; em carteiras corporativas concentradas, a atenção se desloca para aditivos, renegociações, garantias e risco de litígio. Portanto, o setor orienta o processo, não substitui a diligência.
Fontes públicas e limites da leitura macro
O Banco Central mantém estatísticas monetárias e de crédito com recortes relevantes de acompanhamento do sistema. Ainda assim, muitas séries públicas não traduzem diretamente “estoque de NPL por setor” no formato que o mercado secundário usa para comprar e cobrar carteiras. Logo, a leitura macro ajuda a compor o pano de fundo, porém o nível de decisão da cessão depende da base e metodologia de cada transação.
Por isso, é útil evitar excesso de certeza em análises setoriais sem fonte específica. Desse modo, a análise pode focar em como o mercado costuma reagir a ciclos, quais setores tendem a gerar carteiras transacionáveis e quais fatores afetam a recuperação de ativos, como qualidade do lastro e estabilidade do cadastro.
Transformar análise setorial em estratégia de execução
A utilidade prática surge quando o recorte setorial vira trilha de cobrança. Assim, setores com alto volume pulverizado costumam demandar automação disciplinada, padronização de comunicação e controle de versões de base. Em contrapartida, setores com concentração corporativa exigem dossiês, governança de negociação e mapeamento de garantias e obrigações cruzadas.
Felipe Rassi frisa que “onde estão os maiores volumes” é menos importante do que “como esses volumes se tornam cobráveis”. Nesse sentido, análise setorial bem aplicada orienta segmentação e reduz ruído, porque define prioridade, pacote mínimo e critérios de escalonamento de acordo com o tipo de risco que cada segmento tende a trazer para a recuperação de ativos.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
