Levantamento da Polícia Civil aponta que ruas e vielas foram cobertas em diferentes pontos da comunidade; investigadores avaliam que estruturas podem dificultar vigilância aérea e oferecer proteção contra ataques realizados com drones
A Polícia Civil do Rio de Janeiro identificou a instalação de telhados e outras coberturas sobre ruas e vielas do Complexo do Alemão, na Zona Norte da capital fluminense. Segundo levantamento realizado pela Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), as estruturas podem fazer parte de uma estratégia do crime organizado para reduzir a eficiência do monitoramento aéreo realizado com drones e, ao mesmo tempo, criar obstáculos contra ações de grupos criminosos rivais. (Folha de S.Paulo)
Imagens aéreas analisadas pelos investigadores mostram alterações significativas na paisagem da comunidade. Comparações feitas entre novembro de 2025 e fevereiro de 2026 indicaram mudanças em um intervalo de aproximadamente três meses. Áreas anteriormente visíveis do alto passaram a aparecer parcial ou completamente cobertas, dificultando a observação de movimentações em determinados trechos. (Folha de S.Paulo)
A investigação chama atenção principalmente porque drones ganharam espaço tanto nas atividades policiais quanto nas disputas entre grupos criminosos no Rio de Janeiro. Pequenas aeronaves não tripuladas permitem acompanhar movimentações em áreas de difícil acesso sem que agentes precisem entrar imediatamente no território, mas a disseminação dessa tecnologia também provocou adaptações por parte das organizações criminosas.
Coberturas mudam cenário das vielas
De acordo com as informações reunidas pela Core, algumas das estruturas estão concentradas em áreas de acesso mais difícil e consideradas estratégicas pela investigação. Entre as mudanças observadas estão um antigo estacionamento que passou a ficar coberto e uma área de laje onde existe uma piscina. A avaliação policial é de que essas modificações podem diminuir consideravelmente a visibilidade obtida por equipamentos posicionados no céu. (Folha de S.Paulo)
As coberturas também podem cumprir outra função. Investigadores consideram que elas podem servir como uma espécie de proteção física contra objetos ou explosivos eventualmente transportados e lançados por drones utilizados em confrontos entre grupos criminosos. Dessa maneira, uma mesma estrutura poderia dificultar tanto a observação policial quanto ataques vindos do alto. (Folha de S.Paulo)
A Polícia Civil já havia acompanhado anteriormente a utilização de lonas para esconder determinadas áreas e atividades da observação externa. O avanço para estruturas mais permanentes representa, na avaliação dos investigadores, uma evolução dessa estratégia diante da presença crescente de equipamentos de vigilância aérea.
Drones transformam atuação da polícia e do crime organizado
A utilização de drones tornou-se uma das mudanças tecnológicas mais importantes nas operações de segurança pública dos últimos anos. Equipados com câmeras, os aparelhos podem fornecer uma perspectiva aérea de locais onde a circulação terrestre é difícil, permitindo reunir informações antes e durante operações.
O mesmo desenvolvimento tecnológico, entretanto, também passou a fazer parte das disputas entre organizações criminosas. Segundo informações obtidas pela reportagem da Folha, as autoridades fluminenses monitoram a utilização de drones nesse contexto desde 2017, e o fenômeno aumentou nos últimos anos. Somente em 2025, foram registrados 73 casos relacionados ao emprego desses equipamentos em confrontos ou atividades acompanhadas pelas autoridades. (Folha de S.Paulo)
Esse cenário cria uma espécie de disputa tecnológica. Enquanto as forças policiais investem em câmeras, aeronaves remotamente pilotadas e sistemas de monitoramento, organizações criminosas procuram formas de reduzir a eficácia desses recursos. As coberturas identificadas no Alemão são consideradas pela investigação um exemplo físico dessa adaptação.
Polícia cria estrutura especializada
Diante da expansão do uso de aeronaves não tripuladas, a Polícia Civil criou uma unidade especializada em monitoramento com drones. A estrutura recebeu equipamentos adquiridos com investimento de aproximadamente R$ 2,1 milhões, segundo as informações divulgadas sobre o levantamento. (Folha de S.Paulo)
O emprego da tecnologia permite observar previamente determinadas regiões, identificar possíveis rotas e acompanhar deslocamentos sem depender exclusivamente de equipes posicionadas em terra. As imagens também podem contribuir para trabalhos de inteligência e planejamento operacional.
Entretanto, o aparecimento de barreiras físicas evidencia uma limitação desse tipo de monitoramento. Quando ruas inteiras ficam cobertas, câmeras posicionadas verticalmente perdem parte da capacidade de acompanhar o que acontece no nível do solo. Isso pode obrigar as forças de segurança a combinar diferentes equipamentos e métodos de investigação.
Estratégia também aparece em outras comunidades
O fenômeno não estaria limitado ao Complexo do Alemão. Segundo a Polícia Civil, estruturas semelhantes foram identificadas em outras comunidades do Rio de Janeiro, incluindo o Rebu, na Zona Oeste. (Folha de S.Paulo)
A presença dessas estruturas em diferentes localidades aumenta a preocupação das autoridades sobre a disseminação de técnicas destinadas a dificultar a vigilância aérea. Ao mesmo tempo, demonstra como mudanças relativamente simples na infraestrutura urbana podem interferir no funcionamento de equipamentos tecnológicos sofisticados.
Para os investigadores, acompanhar essas transformações passou a ser parte do trabalho de inteligência. Imagens produzidas em diferentes períodos podem ser comparadas para localizar alterações em ruas, imóveis e áreas abertas, ajudando a identificar locais que receberam novas barreiras.
Tecnologia cria nova frente para a segurança pública
O caso do Complexo do Alemão mostra como a tecnologia passou a ocupar uma posição central na relação entre segurança pública e crime organizado. Drones que inicialmente ganharam popularidade para filmagens, inspeções e atividades recreativas passaram a desempenhar funções cada vez mais relevantes em operações policiais.
A expansão dessa tecnologia também provoca uma corrida por medidas e contramedidas. De um lado, autoridades procuram equipamentos capazes de ampliar a capacidade de inteligência e reduzir a exposição dos agentes. Do outro, grupos criminosos adaptam ambientes e estratégias para diminuir a vantagem proporcionada pela observação aérea.
As estruturas identificadas pela Polícia Civil são tratadas como parte desse processo de adaptação. A investigação continuará acompanhando as modificações observadas na região e a utilização de drones em áreas controladas por organizações criminosas.
Fontes: Folha de S.Paulo — reportagem sobre as estruturas e o levantamento da Core | Band — estruturas identificadas pela inteligência da Polícia Civil | O Tempo — monitoramento por drones no Complexo do Alemão
